Saindo da Água: Membros

Podemos dizer que a história da humanidade foi feita em grande parte pela sua capacidade de alterar fisicamente o mundo em sua volta,  isso através do alto intelecto e de sua habilidade em manusear todo tipo de ferramenta que nosso cérebro é capaz de imaginar.

Essa habilidade de fabricar e manusear ferramentas esta intimamente ligada a nossos membros, tão ligada que nosso cérebro reconhece uma ferramenta como extensão de nosso próprio corpo!


Obviamente nossa habilidade com os membros não está somente ligada a produção  e uso de ferramentas, mas a praticamente tudo que fazemos no dia a dia como digitar uma mensagem no twitter, fazer manobras de skate como nosso modelo ao lado, ir ao banheiro, jogar sinuca, caminhar no shopping e em alguns casos  pular a janela quando o marido daquela amante chega em casa antes do previsto.  Dependemos muito de nossos braços e pernas para conseguir sobreviver independentemente.

Mas qual é a origem de nossos braços e pernas?

Primeiro teremos entender um pouco de anatomia humana.
Nossos braços são formados por diferentes ossos que necessitam de resistência e maleabilidade ao mesmo tempo. Entre esses ossos temos o Úmero (o mais longo), logo abaixo uma dupla chamada Rádio e Ulna, em seguida os ossos do pulso conhecidos como Carpais, alongando-se  e formando nossas mãos estão os Metacarpais e finalmente nossos dedos formados pelas falanges. Tudo isso envolto por um grupo de músculos, artérias, veias e  nervos.

O mesmo acontece com nossas pernas, mas estas são compostas pelos ossos Fêmur, Patela (antiga rótula), Tíbia e  Fíbula e os pequenos ossos que formam nossos pés.

O mais importante de tudo isso é que todos os vertebrados terrestres possuem ou já possuíram  (no caso de serpentes e outros animais que perderam os membros durante o curso evolutivo) estas mesmas estruturas,  isso leva o nome de homologia que significa a existência de uma característica compartilhada e que possui a mesma origem embrionária em vários organismos de espécies diferentes.
Então seriam os primitivos vertebrados terrestres os primeiros a possuírem esses ossos nos membros?
Na realidade não, por mais incrível que possa parecer esses ossos apareceram primeiro em um grupo de peixes!

No  Devoniano (fig.1) um período que vai de 416 a 359 milhões de anos  uma subclasse de peixes chamados Tetrapodomorpha (Tetra= quatro, Podos= “pés” e Morphos= Forma) possuíam nadadeiras ósseas  recobertas por músculos como os Celacantos de hoje. Tais animais viviam em um ambiente pantanoso de águas rasas onde na terra seca somente plantas, insetos e outros artrópodes viviam.
Fig..1: O planeta Terra no período Devoniano, grande parte dos continentes de Laurasia e Gondwana era dominado por um ambiente pantanoso e sem vertebrados terrestres.

O mais antigo tetrapodomorpha conhecido é o gênero Eusthenopteron de 385 milhões de anos que já possuía em seu corpo ossos como o Húmero, Rádio e a  Ulna (Fig.2). Assim como formas rudimentares do Fêmur e da Fíbula.  O motivo para um peixe ter todos esses ossos e músculos em suas barbatanas é incerto, como sabemos os Celacantos não se arrastam no leito do oceano, mas fica claro que as barbatanas lobadas como são chamadas esses tipos de estruturas anatômicas vieram das barbatanas comuns encontradas nos demais peixes ósseos.
  Fig.2: Acima reconstrução artística do gênero Eusthenopteron e abaixo os ossos de sua barbatana peitoral.
 
Eu sei que você viu a foto do Eusthenopteron e não achaou nem de longe  aqueles ossos parecidos com os que temos em nossos braços.

Fique calmo pois o que o registro geológico mostra é que outros Tetrapodomorphas apareceram no período Devoniano e a seleção natural agiu sobre suas anatomias modificando cada vez mais aquelas nadadeiras, fazendo  com que ficassem parecidas com o que conhecemos como braços e pernas.

Cerca de 5 milhões de anos depois do Eusthenopteron temos o Panderichthys cujo os ossos se modificaram um pouco mais o que levaria em breve a catapultar esses peixes para fora d´agua.  O gênero Panderichthys parece ter dado origem a uma espécie descoberta em 2004 e nomeada como Tiktaalik rosae  (fig.3) que possui  mais  características compartilhadas com o que viriam a ser os vertebrados terrestres. A verdade é que quando olhamos o fóssil deste animal fica difícil distingui-lo entre um peixe ou um anfíbio! 

É bem possível que desde Tiktaalik este grupo de estranhos peixes-anfíbios já realizavam algum tipo de incursão ao meio terrestre para se aproveitar dos inúmeros recursos alimentares do ambiente já que como dito anteriormente este era habitado somente por plantas e artrópodes.
Nesta lista de animais estranhos temos ainda os famosos tetrápodes do gênero Acanthostega e Ichthyostega (fig.3), ambos posteriores ao Tiktaalik.
 
 Fig.3: Acima reprodução artística de Tiktaalik rosae ao lado de um molde de seus fósseis. Abaixo Acanthostega (superior) e Ichthyostega (inferior).

Observando os membros de Acanthostega e de Ichthyostega percebemos que eles pouco se diferem dos membros que vemos em uma salamandra, sua única diferença  significativa é com relação ao número de dedos (Acanthostega com 8 dedos e Ichthyostega com 7). 

Pode parecer que são muitos saltos e modificações ósseas desde Eusthenopteron até Acanthostega, mas quando juntamos as informações anatômicas com dados cronológicos tudo passa a fazer mais sentido(fig.4).
Fig.4: Diagrama mostrando a relação entre tempo e homologias que levaram ao aparecimento dos primeiros membros de tetrápodes.

Fica claro que a partir destes animais estava pronto o modelo básico de membros e chegar ao que vemos hoje disseminado nas mais diversas formas pelos vertebrados terrestres foi apenas uma questão de tempo. Fica claro também que se não fossem esses peixes se aventurarem em um ambiente tão inóspito quanto a terra seca a vida no planeta seria completamente diferente e eu nunca teria escrito esse artigo.

Seja Bem Vindo!

O Down House tem como objetivo elucidar temas sobre História Natural, de maneira que mesmo alguém que nunca teve contato profundo com a área possa apreciar e entender melhor o mundo natural do qual todos nós fazemos parte.